quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Quando o autismo é apenas um detalhe

              O desenvolvimento de Eduardo me deixa com um sorriso enorme no rosto e com o coração aquecido. A querida Lívia, psicóloga, sempre falava que ele precisava estar seguro para demonstrar seus desejos, para brigar pelo que queria, e que isso era muito importante para o desenvolvimento. Pois agora, Eduardo briga com Luísa pelos objetos. Ela sempre tomou o que quis das mãos dele. Agora, quando ele quer, não desiste fácil, como fazia antes. E eu fico ali, vendo a luta entre os dois e sorrindo orgulhosa. Tá certo, sei que é um pouco diferente do que geralmente acontece, já que as mães não querem ver os seus filhos brigando. Mas é uma vitória grande para o meu filho, eu sei.

            E sorrindo eu lembro dos dias seguintes ao primeiro diagnóstico, quando eu achei que fosse impossível ser verdade. Pior, que se fosse verdade, seria impossível sorrir de verdade. Eu estava enganada. Primeiro quanto a ser verdade. Nada é verdade para sempre. Hoje eu sei que meu filho apresenta características autístitas. Hoje sei que farei tudo que puder para que ele desenvolva o que tem de melhor, para que seja uma boa pessoa, feliz, independente. Depois, superada a fase de angústia perfurante, eu percebi que meu presente, meu filho, continuava trazendo todas as alegrias que me trouxe ao chegar e que eu tanto tinha sonhado. Melhor, trouxe muitas mais, mudou a minha forma de encarar a vida, os pequenos motivos diários para sorrir agora já não passam desapercebidos, uma montanha não precisa mudar mais de lugar para que eu perceba, a caminhada não é mais banalizada, o desenvolvimento não tem mais o tom do corriqueiro. Cada obstáculo transposto é comemorado como vitória, cada olhar do meu filho é comemorado como o primeiro, cada dificuldade é vista como ela é, sem enfeites, sem desespero, buscando a melhor estratégia.

           E eu tenho que continuar agradecendo ao acaso, caso ele exista. Ontem eu vinha desanimada novamente, nessa montanha russa de emoções, preocupada, triste, porque Eduardo estava batendo a cabeça nos lugares e na gente. Conversei com a psicóloga e ela disse que temos que aguardar, mas que é um comportamento normal em crianças, que temos que mostrar que ele tem outras formas para lidar com a raiva e a frustração. Ainda assim, vinha com o coração apertado pensando nisso quando parei no sinal, olhei para o lado e vi um pai carregando um filho do carro para a cadeira de rodas. A criança não segurava a cabeça direito. É um ser humano, igual a todos nós, com sua carga de dor, como todos nós. O pai sorria conversando com o filho. O filho sorria de volta. Não sei o que aconteceu com aquela criança. Fato é que pode acontecer qualquer coisa, a qualquer momento, com qualquer um. Fato é que aquele pai olha para o filho como todos deveríamos olhar, como uma criança, sorrindo.

          Não acredito que os problemas de uns servem para nos aliviar. Não acho que temos que ficar bem porque tem gente em situação pior. Acredito, sim, que é importante olhar para o lado para perceber que os problemas são inúmeros, mas que os bons sentimentos continuam sim levando os homens pela beleza vida, embora haja tanto horror por aqui. Acredito que os motivos para as dores podem estar ocultos, mas não é importante, agora, descobrir estes motivos. Que o importante, de verdade, é a forma como encaramos o caminho.

         Assim, sei que estou no lugar certo. Não por ser uma boa mãe, mas porque sei que meus filhos são presentes divinos e que o mínimo que posso fazer é propiciar as condições para que os dois sejam felizes. Foi aí que o autismo ou seja lá qualquer coisa que fosse, passou a ser mero detalhe. Meu filho não é o autismo. Ele pode estar com autismo, mas não é o que ele é. Ele é um guerreiro, um lutador, alguém que supera tudo com força, com seu rostinho sério, com sua determinação.

      Eu não queria mudar o meu lugar. Sinto muito orgulho de estar aqui, como mãe do Eduardo e da Luísa. Sinto muito orgulho pela inteligência da minha filha, por ela ser sapeca, esperta, tagarela. Sinto muito orgulho pela inteligência do meu filho, por ele mostrar seu aprendizado, independente das dificuldades, pelo sua cabeça erguida, porque ele é gentil, carinhoso. É isso que ele é e eu só posso agradecer, por tudo.

Por fim, chegar e encontrar aqueles sorrisos, não tem preço.

4 comentários:

Anônimo disse...

Querida, é sempre tão bom ler seus posts e me inspirar em sua determinação e nas conquistas e traquinagens de seus filhos.
Sinto me um "tiquitim" mais forte.
Obrigada.
Lu Mãe do Bruninho

Daniela Laidens disse...

Ai, que lindo este texto, Alê !!!!
Não pude conter a emoção... lindo, lindo, lindo...
Dani
www.janelinhaparaomundo.blogspot.com

Alê disse...

Lu,
vamos nos ajudando nesse caminho.
Beijos

Dani,
a gente sabe bem essa loucura de sentimentos, né?

Beijos

Anônimo disse...

parabéns pelos lindos filhos.. e é isso que importa...

Sandra

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