sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal!

           Feliz, pois Eduardo está muito tranquilo aqui em Fortaleza. Depois de alguns episódios de choro sem explicação (que ele não tinha há algum tempo), e de ficar isolado no começo, meu filho sorri, brinca, corre, abraça muito a tiDéa e o tio Marcus, falou vovô (uouo) quando foi sozinho para a casa dele - elegendo mais um porto seguro, já abraça sem que precisemos insistir. E seus beijos, que fofura.

          Luísa continua aprontando, encantando a família, os amigos, os desconhecidos (risos).


          Então eu fico aqui, toda boba, certa de que o amor supera tudo mesmo. Estamos cercados de amor dos que também amamos tanto. Eduardo sente isso e continua evoluindo, mesmo longe de sua rotina, mesmo de férias das terapias, mesmo com tantas pessoas diferentes.

        Estamos no apartamento da minha irmã e o prédio tem um parquinho e muito espaço. Eduardo brinca no escorregador, no balanço, tenta interagir com outras crianças e corre muito, como ama fazer. Já brincou na piscina e correu para o mar. Como ele gosta do mar. Luísa brinca e puxa conversa com todas as pessoas que encontra.


          O período de festas evidencia os ciclos: tudo tem começo, meio, fim. Das boas fases, começo e meio a gente até que leva bem, porém, tudo finda, o que é quase sempre necessário para as novas etapas. Agora, estamos perto do encerramento de mais um ano. Pouca coisa muda do dia 31/12 para o dia 01/01. Nada? Quase nada? Não, ainda acredito que a passagem do ano muda algo que até pode ser imperceptível, entretanto, definirá o ano de 2012: a esperança de que seja o melhor de todos os anos, que seja um ano perfeito.

        É exatamente no auge da esperança o momento em que acreditamos que podemos tudo. Bom acreditar, melhor ainda perceber que podemos, sim.


         No Natal de 2010 eu estava destruída. Eu encontrei familiares, vi vídeos, participei de brincadeiras de trocas de presentes, dei abraços, recebi votos natalinos. Confesso que meu espírito não estava ali. Eu era uma sombra, atropelada pela realidade, caída. Eram muitas mãos amigas estendidas, prontas para ajudar, entretanto, eu não queria levantar. Eu queria ficar ali, escondida do mundo, recolhida, apenas tentando entender os motivos, as escolhas, mais, tentando prever o que seria dali para frente. Para frente? Eu só via o passado e temia o futuro. Eu via um grande sonho, eu via o dia mais feliz da minha vida (o primeiro em que vi aqueles que faziam a festa dentro da minha barriga), eu me via realizada, mãe, mãe de gêmeos, uma felicidade jamais imaginada, ainda que tão desejada. Eu via e revia o exato momento em que toda felicidade havia desmoronado. Por falta de conhecimento, por não entender, eu via um futuro de estagnado.  

         Porque, até o dia do diagnóstico, eu rezava todas as horas para estar errada, para que não houvesse nenhum problema com meu filho, para que todos aqueles profissionais estivessem certos quando diziam que eu estava apenas comparando dois bebês (motivo de toda a angústia), que não havia nada daquilo que eu questionava sobre o desenvolvimento do meu filho. Eles eram formados naquilo, eu era apenas mãe. Descobri que toda a formação profissional é inerte quando não são considerados os relatos e preocupações das pessoas que realmente convivem com os pacientes além daqueles minutos de consulta. 

        Mesmo assim, com a dúvida apertando o meu peito, enquanto apenas eu questionava o que acontecia com Eduardo, era fácil ficar em pé, seguir vendo e sonhando não ver, olhar para o espelho e repetir que era loucura, que estava tudo certo. Ali, meu sorriso ainda vinha de dentro, mesmo diante de todos os meus temores. Depois do diagnóstico, eu sorria com a boca, só. Era um movimento muscular, da boca pra fora. Sorria porque precisava proteger o pouco que tinha sobrado de mim. Estava tão frágil que temia abrir qualquer janelinha da minha alma, pois os caquinhos que sobraram poderiam sair voando e restarem perdidos para sempre.

          Agora, percebo que estamos certos em esperar tanto do novo ano, todos os anos. Podemos fazer de cada ano aquilo que propormos. Porque a verdade crua é que no Natal de 2010 eu não tinha esperança, nenhuma, mas parece que este sentimento teima em renascer, mesmo quando nem olhamos em sua direção, imagine dedicar quaisquer cuidados para seu ressurgimento.


        O ano de 2011 foi de superação. Meu filho está ótimo, recebendo elogios de todos (profissionais que participam de suas terapias, familiares, amigos). Meus filhos são os motivos de minha superação. Eu desmoronei, fiquei em pedaços, mas sempre conversei com Eduardo que ele não tinha nenhuma parcela de culpa pela minha dor. Que a tristeza era minha, decorrente de muita preocupação, de muita angústia, de desespero. Foi muita luta. Fácil, agora, perceber que só importa o sentimento da mãe para o filho. Só. Eduardo e Luísa precisam, igualmente, de sua mãe inteira, e é o que eles têm.

          Neste Natal, celebro os sorrisos finalmente nascidos da alma. Celebro minhas vitórias, por ter conseguido viver com plenitude o papel mais importante da minha vida - o de mãe. Celebro as vitórias de Eduardo, por ter apressado o passo e surpreendido tanto em sua própria caminhada. Eu seguro a mão dele, faço tudo o que acredito melhor, mas as conquistas são dele, as vitórias pertencem a ele, ao meu guerreiro que me orgulha mais a cada dia. Celebro as vitórias de Luísa, que vive tão bem esse amor com o irmão, que consegue sorrir e beijar seu irmão ao falar com ele, mesmo quando vejo em seu olhinho que ela esperava uma resposta que ainda não veio. Ainda, filha, em breve teremos lindas conversas com nosso gatão. Celebro as vitórias de minha mãe, avó única, que supera todos os seus medos e anseios e vive tão apaixonada pelos netos, com uma dedicação que eu nem posso dizer ímpar, já que recebemos, minha irmã e eu, com igual intensidade.

          Não posso ignorar que hoje vivo um momento muito triste e difícil, por um problema pessoal, pelo encerramento de um ciclo tão caro, mas, mesmo com lágrimas, vou passar sorrindo, pela beleza de tudo que temos para brindar.

           Assim, queridos, desejo que o espírito de Natal renove toda a esperança de suas vidas, inclusive aquela que é apenas semente, escondida, protegida por uma camada de terra, terra esta tão necessária para que a esperança possa aparecer e cumprir seu dever. Que, daí, nos preparemos para receber apenas o perfeito.

4 comentários:

Robson disse...

Muito legal o texto, Alê. Com uma mãe como você, o Dudu vai longe. Parabéns por tudo e conte sempre conosco! Beijos.

Nivea disse...

Alê, mais um lindo texto que vc publica. Com fé, dedicação e coragem, a vida vai se ajeitando...

Anônimo disse...

Quandos anos tem Eduardo??? Tenho um filho lindo e maravilhoso que a cada dia me supreende com sua alegria e força de vontade para superar esse fantasma chamado autismo.
Passei por todas essas fases que você está passando com a graça de me Deus que é grande e digno de toda honrra, passou me sinto cada vez mais forte.
Hoje Caio tem 10 anos e a cada dia melhor, nossa única dificuldade ainda é a fala, mas ele faz um esforço tremendo pra se comunicar com gestos com o corpo muito lindo e emocionante.
Deus te abençoe
Meu e-mail:fabiola@autonunes.com.br

Alê disse...

Que lindo, Fabíola. Eduardo tem 2 anos e 9 meses. Ele também tenta se comunicar, muito lindo. Um beijo e obrigada por compartilhar sua história.

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